A banda Inocentes está completando 30 anos de atividade e se destaca no cenário nacional como uma das grandes bandas do movimento punk brasileiro. O grupo, que nasceu no começo dos anos 80, está preparando uma série de lançamentos e atividades especiais para marcar essa data histórica. Para explicar melhor sobre estes lançamentos e nos contar um pouco sobre esses 30 anos, o vocalista Clemente conversou com a Cidade Web Rock! Confira abaixo a íntegra do papo que batemos com o líder do Inocentes!
Cidade Web Rock: O Inocentes foi uma das primeiras bandas de punk rock a se destacar no cenário nacional, no início da década de 80. Como você via a cena do punk e do rock de um modo geral naquela época em que vocês começaram e hoje, que vocês são considerados ícones do estilo?
Clemente: Quando a gente começou em 1981 não existia uma cena de rock nacional mais, aquele rock nacional da década de 70 tinha meio que sumido da cena, né? E o punk surgiu por uma necessidade, uma urgência de se fazer música e a gente tava no meio daquele furacão. A gente viu essa cena sendo reconstruída, então nós participamos de um momento muito legal da música brasileira por que foi o momento que foi construída essa cena que ficou conhecida anos mais tarde como rock de 80, né? E a gente teve uma participação aí porque a gente tocava com aquelas bandas, os festivais punks no começo inspiraram muito as bandas que vieram depois. Eu acho que o punk serviu meio como motivador para muita gente como Legião Urbana, Plebe Rude e tal. Hoje já temos 30 anos de carreira, uma história que começa a virar documentário. Dia 16 de setembro estreou um documentário sobre os 30 anos do Inocentes no Indie Festival e é difícil falar.. É difícil manter uma coerência por 30 anos. A gente teve várias conquistas, várias perdas por tentar manter essa coerência, mas a gente vê depois de tanto tempo que valeu a pena.
Cidade Web Rock: Fale um pouco de como foi o começo da banda e como foi a chegada a um mercado mais popular, com contrato discos lançados e trabalhados por uma gravadora. Vocês alguma vez foram acusados de “trair o movimento”?
Clemente: Bem, no começo da banda a gente realmente fazia parte daquele beco punk gueto radical mesmo e foi assim de 81 até o final de 83 quando a gente se decepcionou um pouco com certas atitudes do movimento punk. Era difícil falar em nome de um monte de gente quando nem todos agiam conforme a gente seria legal agir. A gente concordava com as brigas, a gente não concordava com certas coisas que aconteciam dentro do movimento punk. Então, a gente decidiu percorrer um caminho independente, o nosso próprio caminho e isso resultou em a gente tocar com bandas de outros estilos. Tocar com bandas que não faziam parte da cena punk como Mercenários, Plebe Rude, Ira!, Ultraje a Rigor, Titãs. A gente se inseriu dentro da cena do rock paulista na década de 80. É claro que aqueles mais radicais ficaram bravos e começaram a nos chamar de traidores do movimento, mas pra gente os maiores traidores eram eles que se importavam mais com violência que com a música. Então nós seguimos o nosso caminho simplesmente e o legal é que o nosso público se diversificou. Eu costumo dizer que no nosso show tem de tudo, até punk. Tem de tudo: tem punk, surfista, gente interessada em boa música, em atitude de todos os seguimentos. Eu acho isso o mais positivo e isso levou a gente até a Warner. Chegamos na Warner em 1986 e quem nos levou foi o Branco Mello dos Titãs e somos gratos até hoje pelo que ele fez.
Cidade Web Rock: Quem levou a demo de vocês pra Warner, em 86 foi o Branco Mello, dos Titãs. Como era a relação de vocês com as bandas mais pops? E como é hoje em dia.
Clemente: A história com o Branco Mello foi engraçada, pois nós estávamos desistindo de enviar materiais pras gravadoras. Mandamos para quase todas, EMI, Sony, Universal, mandamos pra quase todas por que era difícil ser independente naquela época devido ao investimento que era muito grande. O Tonhão, baterista do Inocentes, encontrou com o Branco Mello numa pizzaria e como nossa demo já tocava nas rádios rock de São Paulo, ele ficou super interessado e aí nos levou pra Warner e aí começou a história que todos conhecem. Gravamos o “Pânico SP” e foi tudo super positivo. A gente tem uma relação muito boa com as outras bandas como o Camisa de Vênus, Marcelo Nova, sempre encontro com os caras, hoje eu também toco na Plebe Rude. Em 83, eu trabalhava numa casa chamada “Napalm” que recebia os primeiros shows de bandas como Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude, que estavam indo pela primeira vez em São Paulo... A gente, apesar de ser uma banda punk, de ter uma origem dentro do movimento punk, a gente consegue fazer parte dessa cena do rock 80 justamente por ter chegado a Warner e por não ter preconceitos em tocar com nenhum outro tipo de banda, desde que ela tenha um trabalho coerente o suficiente.
Cidade Web Rock: Você diversificou suas atividades artísticas e profissionais nos últimos anos, não ficando restrito somente a banda. Fale um pouco disso.
Clemente: Então, eu sempre fiz alguma coisa, pois é bem difícil pagar as contas só tocando, ainda mais para uma banda que beira ao alternativo, vamos dizer assim. Hoje eu sou apresentador aqui no showlivre.com. Tenho um programa onde as bandas vêm aqui se apresentar ao vivo, faço entrevista com elas e é um programa que tem todos os estilos. Já veio aqui do Ratos de Porão ao Exaltasamba. Sou DJ e toco nas casas aqui de São Paulo, nunca toquei no Rio. Se quiserem me convidar, estou às ordens. Toco na Plebe Rude, que está lançando DVD agora, já que está completando também 30 anos de estrada. Eu estou lá há seis anos. Tenho um projeto com a Sandra dos Mercenários e tenho o Inocentes. Então, a estrada é longa por aí.
Cidade Web Rock: Ainda existe, nos dias de hoje, um movimento punk no sentido radical da expressão? Ainda existem bandas realmente punks? Quem são?
Clemente: Bem, hoje em dia o movimento punk é muito diversificado, ou seja, tem várias opiniões, várias correntes dentro dele, mas ele continua sendo relevante. Então, tem bandas que são super importantes hoje como o Devotos, uma banda de Recife e eu sou muito fã deles. Tem também a banda Flicts aqui de São Paulo, tem o Invasores de Cérebro, a banda do Daniel, ex-vocalista do Inocentes, que mantém aquela atitude do começo do movimento. Tem também algumas bandas que estão mais pela arte e música do que posicionamento político como Excluídos. Eu gosto muito, é como um The Clash. Ou seja, a cena ainda continua se movimentando, continua interessante e as bandas continuam fazendo shows. É uma pena que faz tempo que não vamos para o Rio, mas estamos estreando o documentário do Inocentes e tocamos com uma banda punk antiga americana chamada “The Dickies”, aqui em São Paulo, ou seja, a cena continua se movimentando e ativa, graças a Deus.
Cidade Web Rock: Quais são seus projetos atuais?
Clemente: Bem, então o Inocentes comemora 30 anos de estrada, são 25 do “Pânico SP” que é um disco histórico, um marco, nosso primeiro disco por uma grande gravadora e causou um impacto muito grande. A Warner relançou toda a nossa discografia que foi feita lá, então são três CDS. O “Pânico SP”, como era um mini LP, ele está com as seis faixas originais e nós gravamos mais seis músicas inéditas com a formação atual. Então, a essa edição do “Pânico SP” é uma edição comemorativa com duas capas, com a formação atual de 2011 que é composta por Nonô na bateria, Ancelmo no baixo e Ronaldo Passos na guitarra, desde a época da Warner comigo. Estamos com o documentário sobre o Inocentes que já estreou em BH e em São Paulo, e esperamos que chegue no Rio também. E além de tudo isso, estamos na estrada fazendo shows e tem uma série de produtos comemorativos que estão pra sair sobre o Inocentes: camisetas, bottons, canecas, etc. Ou seja, a banda continua a toda e prontinha para chegar aos 60 anos.